O mundo da ‘Felicidade’ errada: Nação Dopamina, Pluribus e a vida real de quem trabalha”.
- Itana Torres

- há 1 dia
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Felicidade no trabalho não é a ostentação do mundo moderno intensamente estimulada nas redes sociais, e é essa superexposição errônea que está dificultando a sustentabilidade humana.
Nos últimos anos, estudando, palestrando e ensinando sobre a ciência da felicidade, neurociência, os efeitos da dopamina e acompanhando líderes e times em diferentes setores, fui chegando à mesma conclusão que Arthur C. Brooks traz em suas pesquisas: o sucesso por si só não produz felicidade. Precisamos sentir que a vida vale a pena de ser vivida e é isso que produz emoções positivas a longo prazo.
E aqui começa a nossa conversa.
Quando começa a exaustão:
Dizer “sim” para todo mundo e ser aquela pessoa sempre disponível pode no início causar uma sensação boa de pertencimento, mas depois, aparecem sintomas conhecidos: cansaço, irritação e o ressentimento silencioso (faço tanto e recebo pouco).
Impacto direto para o trabalho:
Lideranças que “vestem a camisa da Empresa, mas não a colocam para descansar" tornam-se menos presentes, mais reativas e emocionalmente ausentes.
Times que vivem em “eu preciso entregar custe o que custar” confundem dedicação com autoabandono.
Organizações que exploram o alto engajamento das pessoas adoecem justamente as que mais sustentam a cultura.
Nação Dopamina e os ambientes de trabalho “dopaminados”
Na obra Nação Dopamina, a psiquiatra Anna Lembke mostra que vivemos cercados de estímulos de alta recompensa: notificações, redes sociais, consumo, comida, jogos e, eu acrescentaria, performance às custas de produtividade insalubre. Nosso cérebro não está dando conta de tanta abundância.
Incentivo você a procurar uma maneira de mergulhar a fundo na vida que lhe foi dada; a parar de fugir do que quer que esteja querendo escapar e, em vez disso, parar e encarar seja lá o que for.
Aplicando isso ao trabalho, surgem os ambientes dopaminados:
empresas que apostam em festas, convenções e excessos de eventos com motivação extrínseca como estratégia principal de bem-estar.
métricas de sucesso centradas em crescimento.
uma agenda cheia de estímulos e vazia de significado.
Lembre nos lembra que harmonia é a palavra-chave: precisamos reaprender a encontrar contentamento nas pequenas coisas, presença e nos vínculos, em vez de viver correndo atrás da próxima descarga de prazer.
Ambiente dopaminado gera euforia de curto prazo e burnout de longo prazo.Pluribus e o mito do “mundo da felicidade”
É aqui que entra Pluribus, nova série da Apple TV. O enredo parte de uma frase provocativa: “a pessoa mais triste da Terra deve salvar o mundo da felicidade”. Em um cenário pós-apocalíptico, quase toda a humanidade foi engolida por uma espécie de mente coletiva, pacífica e “feliz”, que busca assimilar os poucos seres humanos ainda autônomos.
O que isso tem a ver com o trabalho?
Muitas organizações criam a sua própria versão de Pluribus: um “hive mind corporativo” de sorrisos obrigatórios, comunicação de orgulho e pertencimento, enquanto divergência, vulnerabilidade e dor real são varridas para debaixo do tapete. Fala-se de:
cultura “positiva”, mas não se pode discordar.
“time feliz”, mas ninguém pode admitir que está cansado.
propósito, mas decisões são tomadas só pelo indicador de curto prazo.
Na série, justamente a pessoa mais triste é chamada a salvar o mundo dessa “felicidade” que custa a autonomia. No trabalho, acontece algo parecido: quem ousa dizer que não está bem, a meta não é realista ou o clima está tóxico, também está tentando informar que o sistema está sob intenso risco de falhar e se romper.
Todos nós precisamos de um respiro no mundo, uma pausa dos padrões impossíveis que com frequência são impostos para nós e que aceitamos pelo medo da desaprovação.
Felicidade no trabalho como sustentabilidade humana
Como Chief Happiness Officer, profissional de Cultura Organizacional e de Segurança Psicológica de Times, vejo frequentemente o custo de ambientes que confundem felicidade com performance sem atenção ao contexto de trabalho.
Quando falo de felicidade de quem trabalha, não estou falando de um estado permanente de alegria, mas de condições mínimas para que a vida possa florescer dentro da organização:
segurança psicológica para falar, errar e fazer perguntas.
relações que regeneram.
trabalho com sentido de serviço e contribuição.
espaço real para descanso, limites e vida fora do crachá.
Sustentabilidade humana não existe com com lideranças infelizes, exaustas e desconectadas da própria humanidade.A partir das pesquisas de Arthur Brooks, da crítica de Anna Lembke ao “excesso de prazer” e da metáfora de Pluribus, podemos desenhar alguns movimentos concretos para as organizações:
1. Acrescentar as métricas de felicidade quem trabalha ao planejamento estratégico da Empresa. Sem abandonar resultado, inclua no painel:
segurança psicológica e engajamento (Q12 Gallup®)
qualidade das relações (colaboração, apoio, respeito).
sensação de sentido e utilidade social do trabalho.
carga de trabalho justa e previsível.
Isso exige ir além de pesquisas de clima superficiais e olhar para sustentabilidade humana como estratégia.
2. Cultivar generosidade genuína. Incentive:
atos intencionais de cuidado por semana (entre colegas, clientes, comunidade)
uso dos pontos fortes de cada pessoa para doar o seu melhor.
limites claros de horário, escopo e responsabilidade.
3. Desintoxicar ambientes dopaminados
Revisar políticas de “benefícios” e eventos: eles são complemento, ao invés do centro da estratégia de bem-estar.
Criar espaços de pausa real: menos notificações, urgência desnecessárias e reuniões improdutivas.
Reconhecer que felicidade também passa por dizer “não”, cancelar projetos inviáveis e parar de romantizar e/ou incentivar o workaholic.
4. Relembrar frequentemente: tempo de trabalho é tempo de vida.
Brooks sugere que cada pessoa reflita explicitamente: quem se beneficia do que eu faço? Líderes podem tornar isso visível:
aproximando clientes e usuários dos times internos.
contando histórias reais de impacto (não só números).
reconhecendo tarefas “invisíveis” que evitam problemas, simplificam a vida dos outros e mantêm o sistema funcionando.
Quando somos responsáveis por nós mesmos, conseguimos tornar os outros responsáveis. Podemos utilizar a vergonha sem envergonhar. E para isso, responsabilidade com compaixão.Para salvar o mundo da “felicidade errada”
Em Pluribus, o mundo aparentemente foi “salvo” pela felicidade coletiva, mas ao custo da liberdade. Em nosso contexto, corremos o risco de tentar “salvar” as organizações com dopamina, positividade tóxica e metas incoerentes, e perder justamente aquilo que faz o trabalho valer a pena: a humanidade.
Felicidade de quem trabalha, sob a lente da sustentabilidade humana, é outra coisa:
permitir que a tristeza também faça parte das conversas.
criar contexto para vínculos saudáveis
organizar o trabalho para que caibam cuidado, limites e aprendizagem.
Ninguém pode prometer um lugar onde ninguém sofre, mas podemos nos comprometer a construir ambientes onde sofrimento não é ignorado, nem romantizado. Ele pode ser acolhido, compreendido e transformado.
Em vez de fugir do mundo, podemos encontrar formas de mergulhar nele e ainda assim, sair são e salvo.
Conte comigo, de verdade.



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